Quarta-Feira de Cinzas: humildade e conversão

Mais um belo período litúrgico se inicia! Na Quaresma podemos renovar a nossa fé através dos gestos concretos de oração, penitência, jejum e caridade, tendo em vista a Páscoa do Senhor. Quanto melhor nos prepararmos nestes quarenta dias, melhor aproveitaremos as graças próprias da Ressurreição.

A porta de entrada para a Quaresma é a Quarta-Feira de Cinzas e, para melhor participar desta liturgia, é necessário ter em mente o significado das cinzas, o rito da celebração e a sua aplicação prática para as nossas vidas.

 

a) O significado das cinzas

Dom Robert Le Gall, abade do mosteiro beneditino de Sant’Ana de Kergonan (França), explica que na tradição bíblica as cinzas são símbolo da insignificância humana. Quando negociava com o Senhor por ocasião da destruição de Sodoma e Gomorra, Abraão reconheceu: “Não leveis a mal, se ainda ouso falar ao meu Senhor, embora seja eu pó e cinza” (Gn 18,27).

Ele também diz que, diante de Deus, o homem não é somente frágil e inconsistente, mas também pecador, isto é, rebelde à vontade amorosa do seu Criador. Por isso o fogo devorador da cólera divina reduz em cinzas o orgulho humano: “de ti fiz jorrar o fogo que te devorou e te reduzi a cinza sobre a terra aos olhos dos espectadores” (Ez 28,18).

Na liturgia da Igreja, as cinzas são feitas a partir da queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. Tratam-se de um sacramental, ou seja, de um instrumento da graça divina que atua na medida da fé da pessoa que o recebe.

 

b) O rito da celebração

A liturgia da Quarta-Feira de Cinzas insere os fiéis no espírito penitencial. A antífona de entrada, tirada do livro da Sabedoria, diz: ‘Ó Deus, vós tendes compaixão de todos e nada do que criastes desprezais: perdoais nossos pecados pela penitência porque sois o Senhor nosso Deus” e, logo em seguida, a oração coleta suplica que o jejum deste dia fortaleça os fiéis na luta contra o espírito do mal.

Após as leituras, que falam do sentido da penitência e das demais obras quaresmais, o sacerdote abençoa as cinzas e as impõe sobre a cabeça dos fiéis (Jt 4,11; Ez 27,30) dizendo: “lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19). Todos os fiéis podem participar deste rito.

 

c) Aplicação prática

Não se pode esquecer que a Quarta-Feira de Cinzas e a Sexta-Feira da Paixão são os dois únicosdias obrigatórios de jejum e abstinênciapara todos os batizados com mais de 14 anos de idade. O “jejum da Igreja” consiste em fazer um café da manhã simples e depois substituir o almoço ou o jantar por um leve lanche; a outra refeição pode ser feita, mas de forma também simples. A abstinência consiste em não comer carne (bovina, suína e aves). Recomenda-se, também, evitar álcool, estimulantes (café, chá verde) e sobremesas em geral.

Como pudemos perceber, o rito das cinzas não é apenas uma ação exterior, ou uma espécie de folclore pós-carnaval. As cinzas representam a disposição de cada fiel em viver bem o tempo quaresmal: é uma abertura do coração à ação de Deus, à transformação interior operada pelo Espírito Santo através da oração, do jejum, da penitência e da caridade.

A alma humana tem necessidade de ritos de passagem, de marcos históricos e rituais para ajudá-la a perceber que daquele momento em diante a sua vida entra em um novo contexto, em uma nova etapa. Que a imposição das cinzas e o jejum desta Quarta-Feira, portanto, nos ajudem a iniciar com fé nossa caminhada quaresmal.

 

Padre João Paulo Veloso

Arquidiocese de Palmas

Mestrando em Sagrada Liturgia

 

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